sábado, 22 de setembro de 2012

Lembra?


          Uma tirinha do cartum Doonesbury, criado por Garry Trudeau, mostra dois estudantes universitários conversando. Um deles pergunta: “Você lembra daquele dia em que nós tiramos a roupa e passamos correndo, aos berros, pela cafeteria dos professores?”. O outro responde: “Nós nunca fizemos isso!”. E o primeiro retruca: “Um dia nós vamos achar que fizemos...”.
          Lembrei desta tirinha lendo, na edição de setembro da revista eletrônica do Smithsonian Institute, uma reportagem sobre a pesquisa feita pela estudante Aurora LePort, que trabalha na Universidade da California em Irvine com um dos maiores especialistas mundiais em memória, James McGaugh. Eles analisaram imagens de ressonância magnética dos cérebros de indivíduos portadores da chamada Highly Superior Autobiographic Memory (memória autobiográfica altamente superior, abreviada HSAM). Estas pessoas são excepcionais por lembrar-se, com exatidão, de praticamente tudo o que ocorreu há muitos e muitos anos, tal como a data exata de um evento público de pouca importância e outras minúcias deste tipo. Mas somente eventos e ações diretamente relacionadas ao próprio indivíduo, daí o nome de “memória autobiográfica”. Não é o mesmo que foi, por exemplo, retratado no filme Rainman com o personagem interpretado por Dustin Hoffman. E também não se trata de sair-se bem em experimentos de memorização instantânea de fatos ou de uma lista de objetos, ou outros testes comuns, nos quais os HSAM são tão bons (ou ruins) quanto qualquer outra pessoa.
          Os cientistas examinaram, inicialmente, quinhentas pessoas que achavam ter excelente memória, mas em apenas cerca de trinta destes indivíduos foi detectada, de fato, a capacidade extraordinária que caracteriza a HSAM. E os exames de imagem mostraram que, nestes indivíduos, a HSAM vem acompanhada de mudanças particulares na morfologia de várias partes interconectadas do cérebro, diferente de outras pessoas. Os pesquisadores, agora, pretendem aprofundar o estudo destas alterações para entender a relação entre as conexões cerebrais e a capacidade anormalmente alta de recordar fatos. Isto não apenas contribuirá para compreender mecanismos de funcionamento do cérebro, mas poderá ajudar a desenvolver tratamentos para doenças que afetam a memória, como a doença de Alzheimer.
          Eu admiro, há muitos anos, o sucesso do grande cientista Jim McGaugh, um ícone da pesquisa de aprendizado e memória, hoje com oitenta e um anos de idade, firme e forte no laboratório e, dizem, pelo menos uma vez por semana tocando jazz no bar do campus. Porém, aqui no telhado, escolhi para curtir outro aspecto dessa história.
          A própria reportagem da Smithsonian chamou atenção para os “outros”, os que não lembram detalhes de eventos ocorridos há anos – ou seja, nós. Em geral, quando lembramos de um evento passado, o fazemos menos da forma exata que aconteceu, e mais pelo que aquilo significa para nós no presente. E, ao contrário da precisão factual da memória dos HSAM, as recordações do passado são adaptadas ou distorcidas pelo presente, bem como por pistas externas.
          O psicólogo ingles Charles Fernyhough, em um artigo escrito em janeiro deste ano para o jornal britânico The Guardian, comentou que a pesquisadora Kimberley Wade, da Universidade de Warwick, recrutou um grupo de estudantes voluntários para um experimento e, em segredo, obteve dos pais fotografias da infância destes estudantes. Usando software de manipulação de imagem, modificou as fotos de cada voluntário de modo a representar um evento que, de acordo com os familiares, jamais aconteceu na infância daquele estudante. Mostrou para cada um “suas fotos” e, duas semanas depois verificou que, em mais da metade dos casos, o voluntário “lembrava-se” do evento de sua infância e chegava a descreve-lo de forma vívida, surpreendendo-se ao ser informado de que aquilo jamais acontecera. Por exemplo, uma foto de um estudante que jamais tinha voado num balão foi modificada de modo a mostrá-lo, na infância, num balão. O estudante, então, passava a “lembrar-se” de detalhes da viagem de balão.
          Evidências como estas dão o que pensar, quando ouvimos de outrem afirmações enfáticas sobre algo que lhe aconteceu há tempos. O fato é que a história pessoal, as expectativas, crenças, ideologias, emoções e sentimentos de cada um distorcem a memória de tal forma que o indivíduo passa a crer firmemente nos detalhes do evento, tenham ou não acontecido. Fernyhough adverte que estas distorções são intrínsecas à natureza narrativa da memória e não a desmerecem. Mas nunca é demais reiterar que a HSAM é rara e que a memória trai, por mais que cada um de nós queira acreditar piamente naquilo que “lembramos”.
          Ou seja, convém ficar alerta. Quando, há décadas, li aquela tirinha de Garry Trudeau pela primeira vez, achei graça. Agora, tenho de fazer força para não me “lembrar” de que ao le-la eu teria percebido claramente o subtexto e o associara, é claro, à natureza da memória...

Rafael Linden


9 comentários:

  1. Agora imagine um livro escrito por mais de 40 autores, sobre fatos ocorridos há mais de mil anos...

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  2. Já bastam as autobiografias...
    :-)
    Beijo
    R

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  3. Verdade...mas em comparação essas são pouco lidas e não-influenciáveis (creio) :)
    Beijo

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  4. Olá Rafael, post divulgado no Teia.
    Até mais

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  5. Respostas
    1. Obrigado, Mateus. Já visitei seu blog "Lion" e também gostei.
      abraços
      Rafael

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    2. Olá, e a tirinha você a tem?
      Quero utilizá-la numa aula de história.

      Ótimo texto.
      Abraços!!

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    3. Tenho, acabei de escanear para você. Mande seu email que eu envio em resposta.
      ab
      R

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