segunda-feira, 13 de agosto de 2012

O sorriso da Tara

          Não é nada do que você está pensando. A Tara do título não começa com letra maiúscula por alguma perversão do locutor que vos fala, É o nome de uma pesquisadora do Departamento de Psicologia da Universidade do Kansas, que estuda emoções, estresse e...sorrisos.
           Tara Kraft é estudante de doutorado orientada por Sarah Pressman, uma cientista especializada nos efeitos que emoções positivas e relacionamentos sociais causam sobre a saúde. Desta vez,  as pesquisadoras examinaram o efeito do sorriso sobre o estresse. O assunto foi notícia na revista eletrônica do Smithsonian Institute e o trabalho está para ser publicado na revista científica Psychological Science.
          O estudo destinou-se a testar se o sorriso, por si próprio, pode produzir benefícios para a saúde. Creio que todo mundo, ou quase todo mundo, acredita que bom humor ajuda a enfrentar dificuldades e que um sorriso espontâneo é uma manifestação de alegria. Mas a questão aqui é diferente. O que as cientistas queriam saber era se, independentemente do humor ou do estado de felicidade do indivíduo, a mera expressão do sorriso tem efeitos fisiológicos.
          Inicialmente, elas treinaram voluntários para segurar na boca uns pauzinhos (hashi) daqueles que se usa para comida japonesa, de modo a forçar uma expressão facial. Os voluntários foram dividos em tres grupos, dependendo da forma como tinham de segurar os hashi. Em um grupo, a expressão facial forçada constituia uma face neutra; em outro, um sorriso comum e, no último grupo, incluia também o “sorrir com os olhos”. Esta última expressão é chamada “sorriso de Duchenne” ou “sorriso genuino” e, caso não saiba o que é, procure uma mulher apaixonada ou, se for difícil de achar, uma mãe orgulhosa de seu pimpolho. Saberá do que se trata.
          Mas, voltando às psicólogas, depois que elas treinaram os tres grupos, colocaram os voluntários para resolver problemas “multi-tarefa”, difíceis e estressantes, sempre segurando os hashi na boca para manter a expressão facial designada. Os voluntários não sabiam que se tratava de uma pesquisa sobre o efeito de sorrisos, nem estavam cientes da expressão a que eram forçados, apenas foram informados de que era um teste sobre solução de problemas. Assim, os resultados não seriam distorcidos pela expectativa quanto à expressão facial. Durante e depois de cada tarefa, cada voluntário tinha de descrever seu próprio nível de estresse e era medida a frequência de batimentos do coração. Quando alguém está estressado, em geral o coração bate forte e rápido.
          A reportagem relata que os resultados foram impressionantes. É claro que pesquisa científica não se avalia por notícia, mesmo de uma fonte respeitável como a Smithsonian. É preciso aguardar a publicação do trabalho, a análise continuada de especialistas e a replicação deste experimento ou de outros para confirmar (ou não) as conclusões. Mas achei divertido escrever sobre o que aconteceu, nem que seja para provocar a curiosidade da prezada leitora e de colegas que estudam a biologia das emoções, lá no Instituto onde eu trabalho.
          Querem saber? Pois os voluntários que forçaram um sorriso sofreram menor aceleração dos batimentos do coração e relataram níveis ligeiramente menores de estresse do que os voluntários que mantinham expressão neutra. E o sorriso de Duchenne provocou um efeito ainda melhor do que o sorriso comum. Sem relação com o humor ou o estado de felicidade dos voluntários, só com a expressão facial!
          Então, este estudo sugere que sorrir não é apenas uma consequência de bom humor ou felicidade, mas pode ser benéfico para a resistência ao estresse e para a saúde do coração, mesmo que seja apenas consequência da contração dos músculos faciais que produzem o sorriso.
          Note que estas conclusões e as de outros estudos na mesma linha, como os indícios de que o sorriso, por si só, induz alterações de níveis hormonais associados ao estresse, são ainda sujeitas a chuvas e trovoadas. Porém, na dúvida, não custa forçar um sorriso em situações difíceis. Talvez seja por isso que Tara Kraft, na foto que aparece numa espécie de Facebook acadêmico da Universidade do Kansas, exibe um largo sorriso, quem sabe um truque para ajudar a sobreviver ao estresse do doutorado...

Rafael Linden

10 comentários:

  1. Maria Bellio - UFRJ13 de agosto de 2012 23:57

    Interessante. Eu já desconfiava disso. Acho que, igualmente, o sorriso do outro também faz um bem dando p/a gente. Minha mãe tem uma síndrome parkinsoniana e hidrocefalia. A válvula q colocou há 6 anos não está bem posicionada e não drena o q deveria. Agora a pressão sanguínea tb deu p/ficar sem muito controle. Nos últimos 15 dias já não consigo distinguir mais q 10% de palavras entre os sons q ela emite. Mas eu tento lhe dizer algo, peço para q ela tenha força, não desista. Ao final, dou sempre um sorriso (mesmo tendo vontade de chorar), ao qual ela responde com outro, quando consegue. E qdo isso acontece, é muito bom.

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    1. Pois é, Maria. De um para outro, o sorriso sempre ajuda, disso não tenho dúvida.
      bjs
      R

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  2. Olá Rafael.
    Bom saber,vou sorrir mais daqui para frente!! rsrsr
    Post divulgado.
    Até mais

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  3. Muito interessante!! Compartilhei no Facebook!
    Com certeza inspirará alguns sorrisos!!
    Parabéns pelo blog, dr Rafael! Adoro seus textos!

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  4. Será por isso que "dar uma bronca" com um sorriso nos lábios é mais bem aceito, embora o "conteúdo" seja igual?

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    1. O trabalho sugere que o sorriso diminui o estresse de quem sorri, então depende...

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  5. Muito legal! Da próxima vez que formos obrigados a dar aquele sorriso forçado, pensemos que ele pode pelo menos nos trazer algum benefício, diminuindo nosso estresse. Quem sabe assim o sorriso não sai até com mais facilidade, e aparente menos forçado.
    :)

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    1. De qualquer forma, se diminuir o estresse sempre vale a pena...

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