terça-feira, 7 de agosto de 2012

As cores do Imperador

          Há alguns anos passei por cirurgias para catarata, que é a perda de transparência do cristalino (a lente interna do olho), a qual ocorre com o avançar da idade ou, precocemente, em rapazolas como eu...Meus cristalinos opacos foram substituidos por lentes artificiais. Depois das cirurgias, a sensação mais marcante é a vivacidade das cores. As folhas da mangueira, em frente à minha varanda, nunca pareceram tão verdes. Mas, o que tem isso a ver com o imperador do título?
          A revista National Geographic trouxe, em junho, uma reportagem sobre o progresso das escavações do mausoléu do primeiro imperador da China. Há pouco mais de vinte e dois séculos, o tirano Qin Shi Huang Di unificou, a ferro e fogo, a parte leste da atual nação chinesa sob o domínio de uma única dinastia. Entre outras proezas, começou a construção da Grande Muralha e fez uma modesta equipe de setecentos mil trabalhadores construirem, para ele próprio, o mausoléu.
          Ao morrer, Qin Shi foi sepultado no monumento, acompanhado do famoso Exército de Terracota, um conjunto de milhares de figuras humanas em tamanho natural, que representa os componentes do exército do imperador. Além disto, há armas verdadeiras, estátuas de acrobatas, artefatos diversos e, aparentemente, restos mortais de artesãos que tinham trabalhado na construção, para evitar que esses últimos revelassem as riquezas ali guardadas.
          Nada disso é novidade, mas a reportagem mostra o que vem sendo feito agora para recuperar as cores das figuras de terracota, a maior parte perdida com o tempo e pela própria exposição das esculturas ao ar, que faz a cobertura colorida flocular e pulverizar em poucos minutos. Um intenso trabalho de pesquisa vem produzindo novas tecnologias que, aos poucos, começam a resgatar este colorido. Até placas do terreno em torno dos artefatos vem sendo cuidadosamente recolhidas com o uso de substâncias químicas que preservam as tintas transferidas das estátuas para o solo durante os séculos em que estiveram enterradas. Os pesquisadores esperam, futuramente, poder reaplicar as tintas às estátuas originais
          Este trabalho, que ainda pode durar séculos, desvendará novos aspectos da cultura artísica dos tempos do imperador e, assim, enriquecerá o conhecimento da história da China e da humanidade. A concepção atual do colorido original das figuras de terracota, bem como o emprego das cores na arte da época, contrastam com a delicadeza dos traços e o colorido discreto de grande parte da pintura chinesa exposta em museus modernos. A flutuação de estilos artísticos, em paralelo com mudanças marcantes na história de um povo, é certamente muito mais fascinante do que a mudança radical na percepção das cores que uma mera cirurgia de catarata provoca em meio a uma trajetória pessoal. E saibam que fiquei embasbacado com o verde das folhas da mangueira, que eu não via daquele jeito há anos.
          Na década de setenta, um grupo de músicos que acompanhava o cantor Moraes Moreira, quando esse saiu dos Novos Baianos e iniciou sua carreira solo, ganhou o nome de “A cor do som”. Os arqueólogos chineses, a cada dia, revelam um pouco mais das cores do imperador Qin Shi e, com isso, da cor da História.

Rafael Linden



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