segunda-feira, 20 de agosto de 2012

A parábola do nono filho

          Gildásio tinha um telescópio meio troncho, mas não tirava os olhos do céu. Ficava concentrado no espaço sideral, desde a hora em que a Estrela Dalva aparecia até Etelvina soltar os cachorros. “Homem, larga esta porcaria e vem deitar, diabo dos infernos!”. Sabe-se lá de que jeito tiveram nove filhos, contando só os que vingaram.
          Quando o primeiro varão nasceu, o arremedo de astrônomo arrumou uma desculpa esfarrapada para botar no guri o nome de Mercúrio. “Esse menino é o mensageiro do céu, que veio confirmar a benção divina sobre o nosso casamento, Vininha!”. Ela, que não era burra nem nada, olhou bem na cara do marido e rebateu. “Tá bom, seu pilantra, bota o nome que você quiser, mas não inventa”.
          Passados uns dois ou tres anos lá estava Etelvina, de novo na maternidade, desta vez por causa de um defeito no látex. Nasceu uma menina que - Gildásio nem precisou argumentar muito - ganhou o nome de Venus.
          E por aí foi, uma família bonita e saudável que, a cada dois ou tres anos, aumentava sem parar com Gaia, Marte e assim por diante, até que o nono filho deu uma trabalheira danada na gravidez e nasceu mirradinho. Nessa ocasião, Etelvina já era avó de um linda garotinha chamada Luna, filha de quem, advinhe... Deu-se por encerrada e ligou as trompas.
          “Não sei o que há com o Plutãozinho. Vive doente, mas nem febre ele tem, está sempre gelado”. O guri era meio esquisito mesmo, pequeno e feinho, enquanto os irmãos eram todos parrudos e as irmãs uns pedaços de mau caminho. Gildásio andava aborrecido, no fundo achando que Etelvina tinha pulado a cerca e embuchado de contrabando em alguma outra galáxia. “Ah, se essa mulher me botou chifre eu arranco as orelhas dela, fiadamãe, estragando meu sistema solar...”.
          Quando, alguns anos depois, se convenceu de que o menino, definitivamente, não tinha semelhança com os outros oito, deu uns sopapos na mulher e expulsou Plutão de casa. O garoto, coitado, não tinha força suficiente nem para reclamar, que dirá se defender da violência paterna. E os irmãos ficaram todos do lado do pai. “É isso mesmo, pai, esse moleque não tem cara de ser dos nossos, e ainda tem nome de cachorro da Disney”.
          O pobrezinho acabou se abrigando na casa de uma família muito caridosa, num bairro não muito distante, onde cresceu e ficou até mais fortezinho. Os jovens da vizinhança não o consideravam lá grande coisa, mas toleravam sua presença. Enquanto isso, Gildásio e Etelvina brigavam todo dia, porque ele queria ter tido mais filhos, não se conformava da menina Ceres, que veio depois de Marte, ter morrido ao nascer. Por sua vez, Vininha se dizia muito satisfeita por ter fechado a fábrica na hora certa, como se diz por aí.
          Um belo dia, Gildásio abriu o jornal e levou um susto. Dizia lá que a NASA tinha detectado mais uma lua em volta de Plutão. Logo Plutão, que os cientistas tinham rebaixado de planeta para uma categoria chamada de “planeta-anão”. Lá fora - da órbita terrestre - não tem esse negócio de politicamente correto. É planeta-anão mesmo. “Macacos me mordam, agora já são quatro luas, será que os cientistas não vão reconsiderar o rebaixamento?”. E, no íntimo, começou a sentir um certo arrependimento por ter escorraçado o nono filho.
          Enquanto isso, Plutãozinho, já com uma cara saudável, passeava pela vizinhança com quatro garotas bem bonitinhas em volta. Todas derretidas pelo baixinho simpático, que não tinha mãe nem pai, mas era charmosinho.


Rafael Linden


10 comentários:

  1. Rafael, adorei!!!! Maior gracinha!!!O texto é leve, muito engraçado e essa analogia com o sistema solar foi genial. Só queria saber se essa história das luas de Plutão é verdade ou ficção. Parabéns!!!!
    Jan

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    1. Oi, Jan
      Sim, a quarta lua de Plutão foi descoberta mesmo. Já o Gildásio...
      :-)

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  2. Shirley Tenenbaum da Silva2 de setembro de 2012 11:25

    Gostei tanto que estou pensando em usar esse texto em sala de aula!!!Posso usá-lo?Estou trabalhando esse bimestre com gêneros textuais e esse texto veio em boa hora!!

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  3. AH, EU SEMPRE PENSO QUE NADA MELHOR DO QUE PARÁBOLAS PARA NOS FAZER COMPREENDER MELHOR AS SITUAÇÕES TANTAS QUE A VIDA NOS TRAZ, TANTO NA FÍSICA QUANTO NA METAFÍSICA.

    PARABÉNS, RAFAEL, VOCÊ É DEZ X PLUS.

    UM ABRAÇO ESTRELADO,

    JANINE MILWARD

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