terça-feira, 10 de julho de 2012

Zoilos! Tremei!

          “Zoilos! Tremei! - Posteridade! És minha.” Talvez Peter Higgs, o cientista britânico que previu a existência do que alguns insistem em chamar de “partícula de Deus”, estivesse a murmurar este verso no dia 4 de julho de 2012. Naquela manhã ele assistiu, na sede da Organização Européia de Pesquisa Nuclear (CERN), em Genebra, à apresentação de fortes indícios experimentais da existência do “boson de Higgs”, a partícula elementar prevista por um conceito de Física formulado por ele há quase meio século.
          É importante frisar que, embora Higgs detenha o nome da partícula, outros físicos foram igualmente importantes para elaborar este conceito. Por outro lado, os novos indícios, embora espetaculares, ainda não são a prova definitiva da existência da tão aguardada partícula. Os cientistas deixam isto bem claro em suas conferências e entrevistas, o que não impede boa parte da imprensa e dos aficcionados de darem por encerrada, festivamente, a busca pelo último elo que faltava “para explicar tudo”...
          Mas não é de Física que esta pequena crônica trata. E sim, de reconhecimento e de redenção. Quando, em 1964, Peter Higgs tentou publicar a formulação avançada de sua teoria, o trabalho foi rejeitado pela revista científica da CERN. A explicação não podia ser mais incisiva: os editores concluiram que o estudo “não tinha relevância para a Física”! Higgs não desistiu e acabou conseguindo publicar o trabalho em outra revista conceituada.
          Apesar da dificuldade inicial, cientistas da área, em geral, consideraram que a teoria de Higgs era a melhor forma de explicar porque partículas elementares e, por extensão, átomos e tudo que deles é formado (nós, por exemplo), tem massa (alguns mais do que outros...). Mas, por quase meio século, físicos de toda parte do mundo vinham, sem sucesso, procurando provas concretas. As notícias de agora dizem ser altamente provável que, enfim, o “boson de Higgs” tenha sido encontrado. E, ironicamente, por esforços da mesma CERN que rejeitou o trabalho original.
          Vejam bem: é altamente provável, mas ainda não é certo, coisa que demandará mais trabalho nos próximos meses ou anos. Porém, seja como for, Peter Higgs já foi, ao longo de décadas, reconhecido, festejado e, agora, apontado como pule de dez para o próximo Prêmio Nobel por, entre muitos outros, ninguém menos do que o famosíssimo Stephen Hawking. Aliás, este último, considerado um dos maiores físicos teóricos vivos, perdeu cem dólares para outro cientista, ao apostar que o boson de Higgs jamais seria encontrado...
          Mas há quem tenha amargado coisa pior ao abalar convicções arraigadas, como foi o caso do engenheiro israelense Dan Shechtman. Este, no início da década de 80, ousou publicar, com grande esforço e depois de sucessivas rejeições, sua descoberta de estruturas organizadas de uma forma não perfeitamente simétrica, que chamou de “quase-cristais”. Tratava-se de uma novidade, que mudava conceitos sobre a natureza da matéria e, por isso mesmo, foi recebida com ceticismo por muitos cientistas. Mas isso ainda não é nada. Dan, que tinha pouco mais de quarenta anos de idade na época, teve de aturar insultos de ninguém menos do que Linus Pauling, um cientista que ganhou não apenas uma, mas duas vezes o Prêmio Nobel - de Química e da Paz. Pauling teria dito que “não há quase-cristais, apenas quase-cientistas”. E o israelense chegou a ser dispensado da equipe de pesquisa à qual pertencia, por seu chefe que lhe disse para “voltar am ler os livros” e outras que tais.
          E o que aconteceu com Dan? Resistiu aos insultos, acreditou na sua Ciência, continuou na carreira e, no dia 10 de dezembro de 2011, recebeu da Real Academia Sueca o Prêmio Nobel de Química...”pela descoberta dos quase-cristais”. Nada como um dia depois do outro, né? Imagino que, parodiando o poeta Manuel Maria Barbosa du Bocage, o laureado Dan Shechtman possa ter murmurado na cerimônia de entrega do prêmio em Estocolmo: “Linus! Tremei na tumba! – Posteridade! És minha também.”

Rafael Linden


2 comentários:

  1. Que beleza de texto, Rafael! Mas é assim mesmo. Todos os precursores penam horrores, em todas as áreas do pensamento, até que os demais se vejam, por assim dizer, atropelados pelos fatos e tenham as cabeças abertas à força pelas evidências. De fato, nada como um dia atrás do outro...
    Beijos!

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    1. Só não se pode desistir...
      obrigado, beijos, Silvinha
      Rafael

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