quinta-feira, 19 de julho de 2012

Uma calcinha

          Há alguns anos, a pesquisadora Beatrix Nutz, da Universidade de Innsbruck descobriu, em meio a outros itens de vestuário emparedados no segundo andar de um castelo no Tirol, uma calcinha que veio a ser datada de 1480. Diz-se que a atribuição de tal data foi objeto de feroz polêmica, que só foi resolvida, há poucos meses, com o emprego de alta tecnologia. Então, na falta de coisa melhor, aqui vai uma modesta contribuição à história dos eventos que culminaram no insólito achado do que, atualmente, se festeja como o mais antigo exemplar daquele importante apetrecho de moda íntima feminina.
          Maximiliano, da casa de Habsburgo, era filho de Frederico, que foi quinto, quarto e terceiro, nesta ordem. Acreditem. Fred, como era conhecido na intimidade da alcova por sua esposa Eleonora, uma portuguesinha cujo dote aliviou as finanças da Áustria (outros tempos, ó pá...), foi Duque da Áustria como Frederico V, depois Rei da Alemanha como Frederico IV e, finalmente, tornou-se Imperador Sagrado de Roma como Frederico III. Houvesse mais outras tantas conquistas políticas do astuto arquiduque, ele acabaria conhecido como o único Frederico que zerou de tanto prestígio.
          Voltando ao assunto, o filho de Frederico e Eleonora, que a família tratava carinhosamente por Max, casou-se com Maria de Burgundy, herdeira de boa parte do que hoje é a França e, com isso, assegurou mais terras para os Habsburgo, sem falar nos excelentes vinhos. O jovem, com apenas dezoito anos, rapidamente providenciou que a sua também novinha esposa desse a luz a Felipe de Habsburgo, o qual foi apelidado o Belo, tomando de empréstimo o epíteto usado, dois séculos antes, para um rei de França muito mais importante.
          Mas tudo isto está nos livros. Ou na Wikipedia. O que não está, num ou noutro, me foi confidenciado por um amigo arqueólogo que, ao fazer escavações ilícitas em Jacarepaguá, descobriu uma bolsa de veludo devorê contendo documentos históricos legítimos do século XV, devidamente autenticados por um especialista em História Medieval cujo diploma tinha sido revalidado, com certo açodamento, através de um suspeitíssimo acordo internacional.
          O que se depreendeu do cuidadoso estudo do material encontrado pelo meu amigo é que o trêfego Max era da pá virada e fazia o diabo pelas quebradas do arquiducado austríaco. Convém esclarecer que esta pá virada não é a mesma que decorava as expressões de sua mãe (a dele, não a sua, caro leitor), uma das quais (expressões, não mães) está entre parênteses três parágrafos acima. É outra pá.
          Mas agora chega de digressões. Dizia eu, os documentos revelaram que Max, mesmo depois de casado, continuou a dar suas escapulidas pelas redondezas e amealhara um séquito de, digamos, súditas de cama e mesa espalhadas pelos domínios de sua família. Entre elas, uma saltitante tirolesa que fazia o que desse na telha do rapaz. A senhorinha, no entanto, era casada com um conde, que administrava o castelo de Lengberg a mando do Arcebispado de Salzburgo, o qual por sua vez detinha a propriedade do dito castelo. Meio complicado, né? Pois o intrépido Max não achava nada confuso e, de vez em quando, vestia uma bermudinha verde com suspensórios, botava um chapeuzinho com uma fita vermelha e partia para inspecionar o Tirol, que era sua senha para “arquiducar” a condessa.
          Numa dessas, Max e a dama estavam em plena atividade quando, subitamente, o conde retornou de viagem, acompanhado do arcebispo para um jantar de negócios no castelo. Max conseguiu se recompor a tempo de fingir que acabara de chegar para uma visita protocolar. Por sua vez, a condessa se atrapalhou com a roupalhada da época e mal teve tempo de se vestir. A festejada calcinha, último item a voar pelos ares no limiar da inspeção arquiducal, tinha ficado presa num candelabro, longe do alcance da dona e, assim, foi impossível recolocá-la no lugar de praxe. Max mal teve tempo de saltar acrobaticamente, agarrar a delicada peça de roupa íntima e atirá-la no monte de areia que, providencialmente, jazia a um canto, pronto para ser usado na reforma do castelo no dia seguinte. Misturou tudo com a ponta do sapato e, ato contínuo, os amantes assomaram ao salão com ar solene, mesuras e explicações muito pouco convincentes.
          Ainda assim, o jovem Max já tinha autoridade suficiente para calar o conde e intimidar o arcebispo, que também dava suas escapulidas, coisa essa que acabou no século XV e nunca mais se repetiu, é claro. Ao fim e ao cabo, os quatro jantaram fartamente, celebraram com um bom vinho de Borgonha a visita do arquiduque, discutiram negócios e partiram, cada um para seu lado. O conde bem que procurou, mas não achou indícios comprometedores e, no dia seguinte, a reforma do castelo prosseguiu como planejado, resultando no emparedamento da preciosa calcinha. Enquanto isso, Max, já no conforto do lar, anotava a rocambolesca aventura em um diário que, quem diria, acabou em Jacarepaguá.
          E assim se explica a recente descoberta da arqueóloga de Innsbruck. Reconheça-se a importância deste achado para a história do vestuário que, longe de mim negar, constitui de fato um aspecto relevante da cultura ao longo dos séculos. Mas, cá para nós, se toda calcinha encontrada em local indevido, ou perdida em sítio incerto e não sabido, tivesse tamanhos desdobramentos, não haveria tempo para mais nada.

Rafael Linden

6 comentários:

  1. Puxa, pena que terminou. Muito engraçado, soltou seu lado cômico? Adorei, quanta cultura! :) Bjs

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  2. Como diria o Millor "Ah, essa falsa cultura"...
    :-)

    beijo
    R

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  3. Rafofo, ainda bem que essas coisas não acontecem em Brasília né???????

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    Respostas
    1. Jamais, o Arquiducado de Brasilia não tem disso não...
      :-)

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  4. Olá.
    Post divulgado no portal de blogs Teia.
    Até mais

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