quinta-feira, 26 de julho de 2012

Fora daqui!

          Foi o que uma galáxia disse para um buraco negro. Foi isso que li no jornal. Ou quase isso. O fato é que cientistas detectaram indícios de que um buraco negro está sendo expulso de uma galáxia. Não se assuste. Relaxe e tenha um pouquinho de paciência. Até eu, que não entendo bulhufas de Astrofísica, consigo explicar.
           Uma galáxia é um conjunto de estrelas e planetas. Há centenas de bilhões de galáxias no Universo. Uma delas é a Via Láctea. Ela, sozinha, contém centenas de bilhões de estrelas. Uma, só uma, destas estrelas é o Sol. E nosso planeta Terra gira em torno do Sol. Perceba como nós, meros sete bilhões de seres humanos, somos minúsculos diante do Universo - fora os Universos paralelos da Astrofísica moderna, mas deixe isso pra lá.
          Já um “buraco negro” é uma massa enorme de matéria agregada no espaço, incluindo restos de estrelas que esfriaram e morreram há bilhões de anos. Massa enoooorme mesmo! Para ter uma idéia, pense em um daqueles “5 passageiros ou 375 kg” que cabem num elevador. Depois, imagine um undecilhão deles. O que é “undecilhão”? É um trilhão de trilhões de trilhões. Escreve-se o algarismo “um” seguido de trinta e seis zeros. Que se há de fazer, números em Astronomia são...astronômicos. Se pusermos vinte undecilhões de passageiros num dos pratos de uma balança, equilibra um buraco negro no outro prato. E tudo isso está contido numa esfera de, no máximo, umas dez vezes a distância da Terra ao Sol. Não é muito mais confortável do que se todos aqueles passageiros estivessem dentro do elevador.
          Pois bem. A lei da gravidade reza que objetos com muita massa atraem para si objetos com pouca. O embrulho que a gente não segura direito cai no chão porque tem muitíssimo menos massa do que a Terra. Pois a massa de matéria num buraco negro é tão condensada, mas tão condensada, que atrai para si tudo nas proximidades. Acredite, até a luz é sugada para dentro. Assim, ao contrário da nossa romântica lua, que reflete a luz do sol e, por isso, a vemos brilhante no céu, aqueles trambolhos são chamados de “negros” porque não refletem luz. São necessárias tecnologias avançadíssimas para estudá-los. Assim mesmo, só através do efeito que eles exercem sobre outros corpos celestes nas proximidades.
          E tem mais. Engana-se a estimada leitora, se acha que está imóvel quando olha preguiçosamente para a folha de papel ou a tela do computador e, mesmo a contragosto, lê estas palavras. As galáxias se movem no espaço sideral, giram, aproximam-se e afastam-se umas das outras a velocidades altíssimas e, por falta de educação no trânsito, vez por outra colidem e se fundem. Aliás, a NASA divulgou recentemente uma previsão de que nossa galáxia vai colidir com a “vizinha” galáxia de Andrômeda. Mas só daqui a uns quatro bilhões de anos, pois Andrômeda ainda se encontra a vinte e cinco quintilhões de quilômetros de nós. Ufa!
          Acredita-se que há um buraco negro no centro de cada galáxia, ou de quase todas. Se duas galáxias se fundem, seus respectivos buracos negros podem se chocar a uma velocidade inimaginável e, sabe aquele momento inicial de uma luta de sumô? Só que, de cada lado, estão trilhões de trilhões de...o resto você já entendeu. Mas, nunca se tinha pensado na possibilidade da expulsão de um buraco negro de dentro de uma galáxia.
          Pois foi exatamente isso que uma equipe do Observatório Chandra, associado à Universidade de Harvard, descobriu, ao examinar uma galáxia situada a cerca de quarenta bilhões de trilhões de quilômetros da Terra. Para isso, usaram um fabuloso telescópio de raios X, o qual está em órbita a cento e quarenta mil quilômetros de altitude. Os resultados da pesquisa indicam que um buraco negro, formado após uma colisão, move-se velozmente para fora da tal galáxia(1). Com base nesta descoberta, os cientistas especulam que pode haver muitos buracos negros vagando no espaço intergalático, indetectáveis com as tecnologias atuais. Como se já não bastasse os asteróides que andam zunindo por aí - e pelo menos esses se sabe onde estão e para onde vão nos próximos anos.
          A Astrofísica é uma Ciência que, ocasionalmente, resulta em produtos de uso imediato, como certos materiais ou equipamentos desenvolvidos originalmente para telescópios e naves espaciais. Mas seu valor maior está no que aprendemos sobre o comportamento do planeta, da Via Láctea, das galáxias vizinhas e distantes e do espaço entre elas, que existem muito além do nosso dia-a-dia, o qual, por sua vez, é uma parte deste Universo em constante evolução.
          Os astros vem, de longa data, alimentando as Filosofias, tanto místicas quanto materialistas. De minha parte, adorei esse comportamento tão humano daquela remota galáxia, que imagino feliz por livrar-se de um sugadouro interminável de matéria e energia, o qual acabaria por consumir tudo à sua volta. Quem dera a Astrofísica nos ensinasse a expelir, de nossa pequena galáxia latinoamericana, os passageiros de certos elevadores que ocupam tantas páginas tristes dos mesmos jornais nos quais lemos, em português ou castelhano, a deslumbrante notícia da expulsão do buraco negro. Antes que estes passageiros nos engulam ou roubem toda nossa luz.
Rafael Linden   

(1) Uma descrição da descoberta pode ser encontrada em http://chandra.si.edu/photo/2012/cid42/. Não perca a simulação ilustrativa da fusão das galáxias, colisão e expulsão do buraco negro em http://chandra.si.edu/photo/2012/cid42/animations.html

6 comentários:

  1. Post no Teia meu amigo Rafael.
    Até a próxima

    ResponderExcluir
  2. Rafofinho, pode me dizer, por que cargas d'água vc julga que só tem leitoras? Ou será que estimadas são apenas as leitorAAs? Acabo de ver um leitor seu retirando-se furioso do blog. Tadinho! Se sentiu abandonado e discriminado... Beijão!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Só me faltava mesmo ser acusado de discriminação...Mas é injusto. De vez em quando eu me dirijo ao "estimado leitoro" também.
      :-)

      Excluir

Seu comentário será respondido aqui mesmo neste blog.