sexta-feira, 20 de abril de 2012

O espalhamento da desordem*

          Há pouco mais de três anos o país assistiu pela TV, chocado, a cenas que mostraram voluntários e militares roubando donativos enviados às vítimas de chuvas torrenciais no Sul. Combinando justa indignação com razões bem fundamentadas, cientistas sociais e cidadãos comuns comentaram, naquela época, que a corrupção reinante no meio político brasileiro, aliada a um desgaste histórico de vínculos sociais, à prevalência do malfadado desejo de levar vantagem em tudo e à sensação de impunidade generalizada explicariam eventos como aquele.
          Patifarias de todos os tipos e tamanhos, em todos os setores da República, continuam a ocorrer e dominar as páginas dos veículos de comunicação. Apesar de não ser cientista social, uma leitura casual que fiz, na mesma semana do roubo dos donativos em Santa Catarina em 2008, chamou minha atenção e motivou um comentário enviado a uma publicação da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC)*. Lamentavelmente, continuo a crer que algo precisa ser acrescentado ao debate sobre as razões que alimentam a degradação ética, a corrupção e a impunidade que nos assolam e, por esta razão, reproduzo a seguir o restante do texto original. 
          No dia 12 de dezembro de 2008, a Science, uma das mais respeitadas revistas científicas do planeta, publicou um artigo** escrito por cientistas da Faculdade de Ciências Sociais e Comportamentais de Groningen, chamado "O espalhamento da desordem". Os pesquisadores holandeses demonstraram que sinais de desordem urbana provocam comportamentos anti-sociais que incluem não apenas mais desordem, mas até mesmo roubos.
           O artigo destinava-se a testar a chamada “teoria da janela quebrada”, segundo a qual sinais de desordem, tais como janelas quebradas, lixo e pixações em locais públicos estimulam outros deslizes, contravenções e crimes. 
          Esta teoria é aplicada na administração pública em várias cidades nas quais, por exemplo, prefeituras regularmente reprimem, punem e limpam, consertam ou cobram providências sobre pixações, sujeira nas ruas ou danos conspícuos nas fachadas das residências. Em suma, combatem firmemente o desleixo, desvios de conduta ou pequenas contravenções que parecem se esgotar em si mesmas, porém, de acordo com o estudo mencionado, estimulam a prática de novas contravenções e crimes mais sérios.
          Parece trivial, e já os leitores devem estar a lembrar-se de lugares comuns, como “o que vale é o exemplo” ou “as más companhias levam ao comportamento desregrado”. Também acho, mas não se trata de “achar”. A verdade é que não há consenso sobre se sinais de desordem urbana, como pixações ou lixo no chão das ruas, contribuem como causa ou são mera consequência da concentração de delitos em um determinado bairro ou cidade.
           A dúvida tem fundamento, pois coincidência ou correlação de eventos não demonstram o que é causa e o que é consequência. Soa familiar? Pois é, grande parte de nossas crenças acerca do comportamento humano no dia-a-dia não passa disso mesmo: crenças, muitas das quais derivadas de viés ideológico. 
          O que os cientistas holandeses fizeram foi testar empiricamente a hipótese de que pixações e lixo nas ruas conduzem a comportamentos anti-sociais e ao crime. Os pesquisadores formularam rigorosamente e conduziram seis experimentos distintos, em locais de pouco movimento na cidade de Groningen. Ali, observadores ocultos contabilizaram os transeuntes que cometiam deslizes em uma determinada situação, comparando as percentagens dos que o faziam quando o ambiente estava limpo e ordeiro, com os que o faziam quando havia pixações, lixo largado ou objetos deixados em locais impróprios na mesma área.
           Incidentalmente, as pixações eram grosseiras, nada a ver com a arte do grafiteiro Keith Haring no metrô de Nova Iorque, ou com as mensagens murais do famoso Profeta Gentileza no Rio de Janeiro. Os próprios pesquisadores mantinham cada área de teste limpa e ordenada ou suja e desordenada, de forma sistemática, para avaliar o efeito apenas destes condicionantes sobre o comportamento dos transeuntes. Os resultados foram dramáticos. 
          Em todos os casos, a percentagem de transeuntes que, por exemplo, ignoravam uma placa de proibição de trânsito por uma passagem ou atiravam lixo no chão foi muito maior quando, tudo o mais mantido igual, havia pixação na parede, papéis no chão ou, em um dos casos, carrinhos de compras largados no estacionamento de um supermercado próximo a cartazes solicitando a devolução dos carrinhos.
           Em outras palavras, sinais de desordem urbana levaram, em todas as situações, a mais desordem e, o que é assustador, até mesmo ao crime de roubo. Este último foi constatado, em dois experimentos separados, pela análise dos números de transeuntes que furtavam um envelope contendo conspicuamente uma nota de cinco euros, mal introduzido em uma caixa de correio, a qual podia estar pixada ou não. 
          As diferenças não foram triviais, as percentagens duplicaram ou triplicaram. E também não se tratava de números pequenos, atingindo até 80% dos transeuntes no caso dos deslizes menores e até 25% no caso do roubo! Ou seja, pixação na caixa de correio levou um em cada quatro holandeses a se tornar um ladrãozinho...
           E daí? Daí que, malgrado o risco de especialistas encontrarem defeitos no desenho experimental ou na análise dos dados, este estudo enfatiza a importância de um elemento particular, em meio ao debate sobre as razões do descalabro ético que atravessamos: a tolerância com que a sociedade brasileira se acostumou a tratar pequenos desvios de conduta do dia-a-dia. “Ah, eu vou parar o carro em fila dupla só um instantinho...”; “Ora, se eu não urinar na pilastra, onde é que eu vou me aliviar?”; “Não tem lata de lixo, então eu tenho que jogar o papel no chão...”; "A fila está muito longa, vou dirigir pelo acostamento...". "Já que não tenho vez, vou pixar a parede do prédio de quem não tem nada a ver com isso...". 
          Este tipo de comportamento, em geral, é considerado um testemunho da informalidade, bom humor, esperteza e “jogo de cintura” de todos nós, brasileiros. Justifica-se a impunidade dos pequenos delitos porque, afinal de contas, se os grandes contraventores, ladrões e assassinos não são punidos, então por que punir os pequenos?
           Mas os dados do artigo da Science sugerem que horrores como o roubo de donativos de vítimas de enchentes e, provavelmente, crimes mais graves, bem como todo o cenário de desprezo pelo bem público e pelos outros em geral giram em torno de um círculo vicioso. 
          Sua face mais escabrosa se encontra lá em cima, com a irresponsabilidade, impunidade e cinismo reinantes nos meios políticos e nas classes dominantes, mas o círculo é francamente alimentado cá embaixo por nossa proverbial tolerância para com os pequenos deslizes do dia-a-dia. E soluções para isso nada têm a ver com intolerância, excesso de rigor ou truculência. Têm a ver com limites. E o que nos falta, em todas as esferas, todas mesmo, são limites.

Rafael Linden

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* Este texto foi atualizado por edição dos dois parágrafos iniciais, a partir do original publicado no Jornal da Ciência e-mail da SBPC em 19 de dezembro de 2008: http://www.jornaldaciencia.org.br/Detalhe.jsp?id=60675

** A referência completa do artigo científico mencionado neste texto é: Kelzer, K; Lindenberg, S. e Steg, L. The spreading of disorder. Science 322: 1681-1685, 2008.

16 comentários:

  1. Oi Rafael

    Excelente texto!! Tudo que precisamos ouvir!! Compartilhei o texto no Blog da Sociedade Brasileira de Imunologia para reflexão de todos!! Abraço Josi

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  2. Oi Josi

    Obrigado pela mensagem e por divulgar o texto. Apareça por aqui mais vezes.
    abs
    Rafael

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  3. Gostei muito deste texto e compartilhei-o no facebook. Aplicável a tanta gente, inclusive a mim...

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  4. A todos nós...Obrigado pela mensagem, Paulo Henrique. Volte sempre.

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  5. Parabéns pelo texto. Tomei conhecimento dele via Blog da SBI.
    Como esse estudo é rico! E como a sua interpretação é interessante! Transpondo o estudo para as esferas do governo, um sistema montado para favorecer roubos e desvios perpetua o crime entre os que já estão e aqueles que chegam a estes cargos e encontram tal cenário.
    Acho difícil acrescentar algo, mas arrisco algumas linhas.
    Do meu ponto de vista, se nos altos e lucrativos escalões desse sistema desordenado a impunidade colabora com esse esquema, aqui, na vida real e cotidiana, embora perpetuemos de fato o mecanismo, nós somos duplamente e duramente punidos.
    Primeiro, pela falta do recurso desviado onde ele devia ter sido empregado. Então é preciso pagar novamente pelo serviço. Não há bons gestores, a fiscalização falha, instala-se a desordem e, cá embaixo então, como se fizéssemos justiça, nós damos o famoso “jeitinho”.
    E porque então nós não tomamos uma postura séria a respeito? Por que nos acostumamos a achar graça de deboches como “roubo mas faço”, “relaxa e goza”, de “dancinhas da pizza”? Em minha opinião, devido à cultura social que se constitui dentro desse sistema desordenado, onde honestidade não é obrigação, mas uma qualidade especial, e onde quem é correto é visto como chato ou um grande idiota. Eis a segunda punição.
    Por outro lado, tanto escárnio público acabou nos levando a uma espécie de “anergia política”. Como quebrá-la é um componente desse jogo que também não é fácil de ser desvendado. Mesmo quando as pressões sociais se demonstram firmes, a resistência daqueles que legislam suas próprias leis impressiona. Talvez ainda nos falte um governante que tenha a coragem de levar adiante as reformas que tanto precisamos neste país (e sobreviver depois disso), principalmente no âmbito político para gerar reflexos na esfera social.
    Bom, já que esse texto ficou com um tom palanquista e clichê, sem nada a perder, encerro dando razão a Gandhi que disse “devemos ser a mudança que queremos ver no mundo”. Simples em teoria, desafiador na prática. Eu procuro sempre me policiar seguindo a máxima (mais uma!) de que dois erros não geram um acerto. Mas a sensação de ser sistematicamente passado para trás é, de fato, terrível.
    Haveria também uma explicação biológica disso tudo? Pode ser que sim, mas renderia alguns outros estudos.

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  6. Pois é, são duas faces e estamos no fogo cruzado. O que acontece lá em cima, só se muda por esforço coletivo. Mas todos precisamos tomar conta do nosso entorno imediato. O estudo dos holandeses me parece mostrar isso claramente. Obrigado pelo comentário, volte sempre.

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  7. Estudo interessante e texto muito bom de um assunto que devemos refletir. Compartilhei no facebook. Abraço

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  8. Valeu, Vinicius. Cada um de nós tem sua parte a fazer.
    Ab

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  9. Oi, Rafael. Só uma informação relevante: acho que esse artigo estava sob suspeita de manipulação dos dados na esteira de um escândalo envolvendo alguns dos autores (ver http://blogs.discovermagazine.com/notrocketscience/2011/04/07/disordered-environments-promote-stereotypes-and-discrimination/). Contudo, eu também acho que a hipótese é sensata

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    1. Sua mensagem (ainda anônima, que pena) me assustou, mas a reportagem do blog da Nature se refere um cientista chamado Diederik Stapel que teve, entre outros, um artigo em colaboração com Siegwart Lindenberg retirado por fraude, ou suspeita de fraude. Lindenberg é um dos autores de "The spreading of disorder", o qual foi citado nesta crônica, mas, ainda segundo o blog da Nature, não está implicado nas fraudes do Stapel. Ufa!...

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  10. Olá Rafael,

    Muito obrigada pelo texto, por este em especial, mas também pelos outros todos! Vao pondo luz nos meus dias!!
    Acredito cada vez mais que o poder de mudança está na educação dada dentro das 4 paredes de uma família, de uma casa. Podemos mudar e melhorar o mundo quando o mundo ainda são crianças, uma boa educação com valores e com coragem é a base de um Bom (com letra maiúscula) cidadão, é a base de tudo!

    beijos da Lusolândia
    Helena Vieira

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    1. Também acho, Helena. E, de alguma forma, é preciso também educar (ou reeducar) os adultos, alguma plasticidade tem de haver.
      Beijos
      Rafael

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  11. Rafael, não tinha lido essa crônica ainda. Gostei bastante!!! Bj e boa eleição

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